sábado, 31 de janeiro de 2026

Rebento

Um bafejo ameno sussurra ao coração…

Depois de te haver abraçado

Este calor terreno,

Como nas planícies de solo lavrado,

Envolve o meu peito-semente,

Sempre.

Cultivo fecundo

Cujo brote plantado num barro fundo

Cresce para a luz da existência

Com uma felicidade delicada,

Banhando-se no sabor do sol da alvorada

E deliciosamente contempla a essência.

Sente assim o meu peito

Esta nova felicidade.

E encontra toda esta vida

Nos teus olhos verdes

Que são uvas maduras,

Suspensas numa vinha tão alta

Que se me torna difícil alcançar.

Tanto mais esta dificuldade

Me leva à loucura

Quanto o coração

Me rebenta de vontade.

Seja este alento

Como pólen lançado ao vento,

Para que se espalhe pelo universo

Poeira das palavras que te escrevo.

E por toda a parte

Assim seja compreendido:

Com um sorriso-lágrima aberto

Ao contemplar deste amor crescente,

Tanto mais envolvente e profundo

Quanto o solo lavrado

Que acolhe a pequena semente

Da maior árvore do mundo.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Poema de um dia na praia

 Há mulheres que chegam como quem abre uma janela dentro do tempo. O ar muda, a luz muda, o corpo desperta uma lembrança antiga, a de estar vivo.

Ela trazia o sol nos gestos, um rumor de mar na pele, e nos olhos o princípio de todas as viagens.

Há uma pureza rara nesses encontros: o instante em que o olhar reconhece algo que não se explica. Como se, por um breve segundo, o mundo se revelasse inteiro, vulnerável, luminoso, verdadeiro. Sei lá...

Não sei o que nasce aí. É algo mais fundo, anterior ao desejo. Uma força que lembra o milagre da criação, a harmonia silenciosa das coisas quando ninguém as tenta compreender.

O corpo, diante de tanto mar, apenas consente. Respira.

E nesse respirar há já uma oração.

Algumas presenças não pedem nada, apenas acontecem. São passagem, são semente, são o reflexo da própria vida a recordar-nos que ainda há ternura possível.

E talvez seja isso a inspiração:

reconhecer no outro o brilho daquilo que esquecemos em nós.

sábado, 7 de março de 2015

Sou poeta

Sou poeta porque escrevo
as brancas palavras que assomam
na textura da folha limpa em relevo
memórias de amores que me assombram

E que de certa forma me perseguem
sonhos erotismos pesadelos
lacunas que em meu peito ardem
no rubor da madrugada meus anelos

E depois na exaltação das alvoradas
volúpias que por vida adentro enaltecem
a matiz das ambições que me preenchem
escritas em versos de canções embriagadas

Saudade amor ou possessão
esvaídos em lágrimas incessantes
que escravizam os meus dedos petulantes
na sombra das noites a maldita solidão.

domingo, 23 de novembro de 2014

O que penso acerca de nós agora

É simples e belo
o sentimento que se esconde
nas entrelinhas do nosso olhar

Não sei o que pensas
mas o meu corpo vibra
mais intensamente quando me olhas

E o teu sorriso
revela um arco-íris
na abóbada celeste

Em mim tudo é plano
como um campo de trigo
acariciado pela brisa

A semente é forte
e a vontade faz-me lavrar
para que cresça e dê frutos

Eu nada sei, mas...

Enquanto a lua brilha alta
os meus olhos vão querer
alcançá-la sempre

Vagabundo

Eu quero ser um vagabundo!
Será que posso ser um vagabundo?

Quero ir e correr o mundo... Contigo!

Mas eu não sei onde tudo começa e acaba
Eu sei lá se o mundo é mais do que
o lugar onde ela está, lá fora, ou dentro de mim

Eu não sei se o tempo é mais do que esta noite
em que as estrelas brilham sobre o nosso olhar

Ilumina a minha alma com a tua presença,
e molda os meus medos
como argila esculpida entre os teus dedos
escultora de emoções 

Vem e faz-me ver todo esse dia
que há por nascer em nós
Vagabundos

Tu és maior do que o sol!
Eu entro raiz no chão
como a árvore da vida
que desce sobre o beijo
que ela me deu

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O Pôr-do-sol

O pôr-do-sol
desce sobre o caminho que marcamos
com as nossas pegadas humanas
sobre esta terra calcada

e tu sentas-te no chão
com o caderno no regaço
as aguarelas abertas
e o pincel apontado
à folha em branco

Tens o peito entregue à beleza da vida
que nos rodeia
galgando o olhar
penetrando a alma
com calma
preenchendo

Mas a luz já se foi
vem a noite
sobre o teu desenho acabado
e tu enrolas um cigarro
enquanto eu espero as palavras
que ainda escrevo
no meu caderno riscado
e reescrito

Ainda o amor brilha em nós
unidos pelo resquício de luz
e a remanescência
de cor no mundo

E quando o sol se foi
já nós andamos noutra senda
que nos leva sei lá onde

Parece ser feita da mesma matéria
que os sonhos essa estrada
silenciosa
entre o bosque
o canal
e a lua crescente


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Tenho o coração gasto
e cheio de arranhões
um coração que viu sonhos
desfeitos na tempestade
como a nuvem
que sonhava ser estrela
e choveu

Tenho um coração tão denso
que é um novelo
carregado de nós
e não consigo desenlear

Esse coração tem histórias tristes
que nunca vou contar
dias cinzentos de inverno
noites escuras de breu

Mas ontem voltou o rubor
pintado pelas mãos de Sofia
Mãos perfumadas pela terra
pelas flores por candura

Mãos que lavaram o negrume
que obscurecia o meu coração-carvão
num toque delicado e curioso

E com um sopro fresco
os seus lábios de mistério
encheram-me o peito

A densidade deu lugar à leveza
os nós desataram
o céu abriu e o meu coração
mesmo sem asas
voou